Casamento de Tu’itsit e Jawawika no Alto Xingu.

“Um A no início e o mar fica infinito.”

Bem-vindos navegantes!

Quero começar contando uma experiência que tive o prazer de viver em agosto do ano passado. Fui convidado para fotografar os índios da Aldeia Morena, na região do Alto Xingu. Vocês tem ideia do que é isso? Havia muita expectativa, adrenalina e ansiedade porque havia rumores de um casamento no ar. Depois de 48 HORAS DE ESTRADA, partindo de São Paulo-SP, com direito a 4 horas de OFF-ROAD e 2 horas de barco, cheguei na aldeia Morená do Alto Xingu no estado do Mato Grosso, onde vivem aproximadamente 100 índios remanescentes da tribo KAMAIURÁ.

Vai ter muito termo estranho aqui? Vai! Mas vou explicar o que é cada um deles e como eles se casam. Já viu índios se casando? Então vai vendo!

Além do ritual do casamento, os índios do alto XINGU também realizam um importante ritual fúnebre chamado KUARUP, cujo nome corresponde ao da Árvore de onde retiram os troncos sagrados que fazem parte do rito. Dentro desse processo, há uma parte reservada para a “HUKA HUKA”. (Você deve estar se perguntando: – Mas Artur, o que diabos é HUKA HUKA???).

Pra quem não conhece, Huka Huka é a luta tradicional dos índios do Xingu que lembra o Judô, onde os guerreiros são enfileirados e escolhidos para os embates. Dentre eles, os mais fortes e destemidos começam as lutas, em movimentos rápidos como raios, lançando mão de precisos e poderosos golpes visando à queda do adversário.

Vale mencionar que esses guerreiros passaram a noite toda acordados, num rito para evitar a visita de ESPÍRITOS MAUS durante o sonho, que poderiam lhes retirar a força no momento da luta. As ATANGAS, tipo de flautas duplas utilizadas durante o Kuarup, soavam incessantemente ajudando a mantê-los acordados ao longo da noite. As fotos revelam alguns momentos da preparação e dos combates. Repare na VIRILIDADE dos índios e no belo contraste com sua ingenuidade aparente.

O detalhe é que não é uma arte marcial exclusiva dos homens: as MULHERES também treinam os movimentos da Huka Huka, e logo após, fazem um ritual de descamação de pele utilizando-se de DENTES DE PIRANHA. Serve para que a pele renasça, tornando-se mais bela. Confesso que participei do processo e, é rejuvenescedor (apesar de doloroso, rs).

Depois de uma boa briga, sempre bate aquela fome! Então, as mulheres colhem, descascam e preparam muita mandioca para a refeição que será servida, além de cuidar das crianças pequenas e ensinar-lhes os COSTUMES. Existe um momento de transição muito importante na vida dos pequenos, em que as meninas se transformam em mulheres e os meninos se transformam em homens, aprendendo com as índias mais experientes os trabalhos manuais, o preparo da comida, enquanto os meninos aprendem com os índios mais experientes a caçar, explorar e manusear o arco e flecha. Eles mostram aos pequenos como retirar e matar os jacarés dos poços que se formam da seca do rio, pois eles são predadores de peixes e representam uma ameaça à alimentação de toda a tribo. Segundo alguns membros da tribo, os agrotóxicos que escorrem das imensas e abundantes plantações de soja da região representam o maior vilão para a alimentação dos indígenas.

Antes do casamento, os índios se banham para retirar as impurezas do corpo. O Cacique se prepara para desempenhar o papel fundamental de realizar a união entre Tu’itsit e Jawawika. Colocando seu colar feito com GARRAS DE ONÇA e vestindo seu tu’kanap na cabeça, feito com penas de TUCANO, o cacique segue para encontrar os avós e os pais dos noivos para obter os seus consentimentos. Com a anuência da família, a REDE é levada para o local que será o ninho do amor dos noivos. A rede simbolizará a privacidade do casal indígena, e se tornará o legítimo lar afetivo de ambos.

A noiva, com um SORRISO maravilhoso, recebe de sua mãe o colar feito especialmente para este grande momento, que simboliza o amor filial. Sua mãe a ajuda com a maquiagem, pintando-lhe os cabelos com URUCUM e penteando seus cabelos, colocando-lhe os adereços próprios para a cerimônia.

O noivo se prepara separadamente da noiva, com seus colares, braçadeiras, cabelo tingido com urucum, tu’kanap na cabeça e PINTURA CORPORAL, tudo para o grande momento que acontecerá em breve.

Então o noivo segue para a casa de sua belíssima noiva, onde é muito bem recebido por sua família. O cacique orienta o noivo para que cuide e zele bem de sua futura esposa. Existe um RESPEITO muito grande pela figura do cacique. Todos concordam com a união, e então eles dividem um peixe assado, simbolizando a união de ambos perante a NATUREZA. Agora dividirão a mesma rede até o fim de suas existências. Enfim, casados! \o/

Abaixo minhas 10 fotos favoritas:

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